Nossos traumas de infância podem atrapalhar nosso matrimônio?

A raiz de muitas separações e problemas conjugais está na infância. E é nesse mesmo passado que pode estar o começo da reconciliação. Para tratar dessa questão, permita-me compartilhar a história de uma querida amiga.

Seu pai era um homem profundamente agressivo, alcoolista e infiel em seu casamento. Naturalmente, ela nutria por ele uma profunda mágoa. Tamanho era seu sofrimento que ela recorda de, ainda criança, pedir a Deus de joelhos que seu pai morresse.

Embora não quisesse ser como seu pai, ela acabou dedicando-se excessivamente à vida profissional – praticamente a única qualidade que enxergava nele –, justamente como uma maneira de garantir sua independência. Dessa forma, ela jamais necessitaria de homem algum. Eis uma grande ironia nisso tudo: nós às vezes nos tornamos pessoas semelhantes àquelas que mais nos magoaram.

Ela fizera um pacto consigo mesma: jamais necessitaria ou confiaria em homem algum, tomando como verdadeira a velha máxima de que “todos os homens são iguais”, ou seja, todos eles traem, e nenhum deles presta. Entretanto, com o passar dos anos, veio a juventude e, com ela, a primeira paixão. “Encontrei o homem mais lindo do mundo”, dizia ela, e tal era a força de seu sentimento que esqueceu completamente de todos os seus pactos e profecias internas. Algum tempo depois, ela e seu “homem mais lindo do mundo” se casaram. E o que aconteceu em seguida? Infelizmente, algum tempo depois, ela descobriu que seu marido a traía, o que acabou acionando a dor mais profunda da menina interior que trazia dentro de si. Seu marido cutucou justamente a ferida que mais lhe doía.

O trauma da infância veio à tona. O que ela fez?

Como era de se esperar, ela entrou em um turbilhão de emoções. Foi então ao encontro de sua mãe, com a ideia de separar-se. Um detalhe importante: não se tratava de apenas uma traição, mas de várias. Sua mãe, uma mulher muito sábia, que passara por muitas provações em sua vida, lhe disse: “Vá para casa e acerte seu casamento. Faça o que eu não fiz”.

Essa amiga acabou percebendo o espiral em que sua vida se transformou. Ela já vinha de uma história semelhante, de uma família cujo pai era infiel, o que nos leva à pergunta inevitável: por que sua vida deu essa volta novamente? A boa notícia é a seguinte: se numa curva dessas voltas da vida a história se repete, é porque precisamos aprender algo novo. E é exatamente o que minha amiga fez: quando percebeu o reinício do mesmo ciclo, ela parou tudo e foi diretamente à fonte do problema. Antes de tentar uma reconciliação com seu marido, ela precisava acertar as contas com sua história, com seu passado. E isso significava, antes de qualquer outra coisa, reconciliar-se com o primeiro homem da sua vida, seu primeiro referencial de amor masculino: seu pai.

Ela foi ao encontro de seu pai, e ele, tamanha sua inaptidão em ser amado, não sabia sequer receber o abraço de sua filha. Mas ali, naquele momento, ela fez algo inédito na história de ambos: pai e filha nunca haviam se abraçado. Ela então pediu perdão ao pai. Talvez você pense: “Ela pediu perdão? Mas quem deveria pedir perdão era ele!”.

Capacidade de amar

Acontece que ela, no momento em que reconheceu que não o amou como deveria tê-lo feito na infância – muito pelo contrário, só demonstrava desamor –, fez com que ele se abrisse para o amor. Afinal de contas, será que são os pais que entram em nossas vidas com uma missão? Às vezes – ou talvez, na maior parte das vezes – somos nós que surgimos na vida de nossos pais para curar feridas que eles carregam dentro de si, principalmente em relação à capacidade de amar.

Refletindo sobre sua vida, medite sobre o seguinte: quais são as suas profecias? Quais são os pactos internos que você fez consigo mesmo e que, infelizmente, seu cérebro acatou como verdade?

Voltemos à história de minha amiga. Após esse momento de reconciliação – note que coisa curiosa –, ela começou a experimentar, pela primeira vez em muito tempo, uma sensação de prazer em sentir o cheiro de seu marido. Gosto de dizer algo que ilustra bem esta situação: “Se não nos reconciliamos com o passado, estamos fadados a caminhar para o futuro de costas”.

Quando ela abraçou seu pai, algo dentro dela se abriu para seu marido. Foi como se uma porta que estivera por muito tempo fechada fosse, finalmente, reaberta.

Você quer curar sua história?

Atualmente, minha amiga é palestrante e, como tal, necessita viajar constantemente. E ela conta que muitas vezes, retornando de suas viagens, mesmo estando a alguns quilômetros de sua cidade, ela lembra do cheiro de seu marido e sente saudades dele.

A partir da reconciliação, começou a construir uma nova história. Os anos se passaram, e seus filhos já estão adultos. Para minha alegria, alguns meses atrás, recebi um telefonema  seu. Em meio à nossa conversa, uma notícia e tanto: uma filha de seu marido, fruto de uma de suas traições do passado, apareceu. Uma filha diferente: uma linda menina negra, uma irmã de quem sua filha de sangue passou a cuidar com todo o carinho. E alguns dias atrás, essa menina – carente de afeto, carente de estudo, carente de bens – deitou no colo de minha amiga e perguntou a ela algo pelo qual ela nunca poderia esperar: “Posso te chamar de mãe?”.

Com isso, eu o convido a pensar: você realmente quer curar sua história? Às vezes, é mais fácil ficarmos como eram nossos pais, presos aos traumas do passado, repetindo para nós mesmos aquela crença negativa: “Todo homem é ruim, homem nenhum presta”.

Contudo, fazendo a coisa certa, podemos modificar completamente nossa história, algo que talvez nos acompanhe por várias gerações. Espero sinceramente que você decida quebrar o espiral. Não apenas pelo seu próprio bem, mas também porque talvez você seja a pessoa que quebrará esse ciclo negativo e os condicionamentos que acompanham sua família através de gerações. Assim, a partir de você, surgirá uma nova geração pronta para amar e ser amada plenamente. Assim, seus filhos e seus netos herdarão de você essa capacidade de mudar uma história. Você quer? A escolha é sua!

Trecho extraído do livro “Vencendo os Traumas que nos Prendem”, de Adriana Potexki.